CONFRONTADOS PELA VERDADE — PARTE 2 Quando o eu deixa o centro CONFRONTADOS PELA VERDADE — PARTE 2 Quando o eu deixa o centro
Discipulado Cláudia Abreo

CONFRONTADOS PELA VERDADE — PARTE 2 Quando o eu deixa o centro

CONFRONTADOS PELA VERDADE — PARTE 2

Quando o eu deixa o centro

O chamado de Cristo para uma vida de renúncia

Se o discipulado que conduz à maturidade passa pela confrontação com a verdade, cedo ou tarde essa verdade tocará em uma das questões mais profundas do coração humano: quem ocupa o centro da minha vida?

Essa pergunta não é tão simples quanto parece. Podemos confessar Jesus como Senhor, conhecer as Escrituras, servir na igreja e, ainda assim, continuar tomando muitas decisões a partir de nós mesmos — do que queremos, sentimos, consideramos justo ou acreditamos merecer.

O problema não está em termos desejos, necessidades ou sentimentos. Eles fazem parte da experiência humana. O problema começa quando o “eu” deixa de ocupar seu devido lugar e passa a determinar o que é verdadeiro, bom e correto.

Desde o princípio, a Escritura revela essa tendência do coração humano. Em Gênesis 3:1–6, a serpente apresenta ao homem e à mulher a possibilidade de serem “como Deus, conhecedores do bem e do mal”. A tentação envolvia mais do que comer um fruto proibido. Havia ali um convite à autonomia: a possibilidade de a criatura decidir, independentemente do Criador, aquilo que seria bom para si mesma.

A queda introduz, assim, uma desordem profunda. Deus deixa de ser a referência absoluta, e o ser humano passa a desejar ser sua própria referência.

Essa mesma tensão aparece, de maneira contrastante, na tentação de Jesus.

Depois de quarenta dias no deserto, Jesus teve fome. E Satanás lhe disse: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão” (Lucas 4:2–4).

A fome era real. A necessidade era legítima. Jesus tinha poder para transformar a pedra em pão. A questão, portanto, não era simplesmente o pão. Era de onde partiria sua ação.

Jesus se recusou a usar seu poder independentemente da vontade do Pai.

Ao longo das demais tentações, o mesmo princípio permanece. Satanás oferece poder, glória e uma oportunidade de demonstração pública de sua identidade (Lucas 4:5–12). Jesus, porém, permanece submetido ao Pai e à Palavra.

Existe aqui um contraste extraordinário.

No Éden, o ser humano procura autonomia.
No deserto, Jesus escolhe submissão.

Onde o coração humano diz: “Eu decidirei o que é melhor para mim”, Cristo demonstra outra maneira de viver: “Minha vida está submetida à vontade do Pai.”

É exatamente para esse caminho que Jesus chama seus discípulos.

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). Lucas registra o mesmo chamado acrescentando uma expressão decisiva: “tome dia a dia a sua cruz” (Lucas 9:23–24).

Poucas expressões do evangelho foram tão mal compreendidas quanto negar a si mesmo.

Negar a si mesmo não significa odiar a si próprio. Não significa negar sua personalidade, ignorar suas necessidades, perder sua identidade ou considerar-se sem valor. Também não é uma espiritualidade baseada em autodesprezo.

Jesus está falando de senhorio.

Negar a si mesmo significa renunciar à pretensão de ser o centro e o senhor da própria vida. É deixar de viver sob a lógica de que meus desejos, sentimentos e interesses possuem a palavra final e reconhecer que existe uma autoridade acima de mim: Cristo é Senhor.

Por isso, tomar a cruz não é simplesmente suportar dificuldades. No contexto do chamado de Jesus, a cruz aponta para uma renúncia muito mais profunda: seguir Cristo mesmo quando a obediência custa alguma coisa.

E Lucas acrescenta: dia a dia.

Há renúncias que fazemos uma vez. Mas há uma rendição do coração que precisa acontecer continuamente.

Todos os dias surgem situações em que nossas vontades encontram a vontade de Deus. Todos os dias somos confrontados com escolhas nas quais precisamos decidir quem terá a palavra final. Todos os dias o discipulado toca novamente a questão do senhorio.

É justamente aqui que a confrontação com a verdade se torna tão necessária.

Porque podemos usar a própria fé para preservar o eu no centro. Podemos conhecer a Bíblia e selecionar apenas aquilo que confirma nossas opiniões. Podemos chamar de “convicção” aquilo que, na verdade, é resistência. Podemos desejar que Deus abençoe nossos caminhos sem perguntar se nossos caminhos estão submetidos a Ele.

Paulo descreve uma humanidade marcada pelo amor desordenado de si quando afirma que, nos últimos dias, os homens seriam “amantes de si mesmos” (2 Timóteo 3:1–2). O contexto mostra que ele não está condenando o cuidado legítimo consigo mesmo. Esse amor autocentrado aparece acompanhado de avareza, arrogância, orgulho, ingratidão e desobediência.

É o eu que cresceu tanto que já não consegue permanecer em seu devido lugar.

E talvez uma das formas mais sutis de imaturidade espiritual seja desejar seguir Jesus sem permitir que Ele confronte aquilo que queremos preservar.

Queremos Cristo como Salvador, mas resistimos quando seu senhorio toca nossas escolhas. Queremos suas promessas, mas nem sempre sua correção. Queremos que Ele caminhe conosco, quando o convite do evangelho é exatamente o contrário:

“Siga-me.”

O discipulado começa a amadurecer quando essa ordem é restaurada.

Não pedimos mais que Cristo ocupe um lugar dentro de uma vida organizada ao redor de nós mesmos. Permitimos que nossa vida seja reorganizada ao redor de Cristo.

Isso não destrói nossa identidade. Pelo contrário, coloca nossa identidade em seu lugar correto. Não deixamos de existir quando o eu sai do centro. Deixamos de carregar um lugar que nunca nos pertenceu.

Há uma liberdade profunda nisso.

Não preciso ser meu próprio senhor. Não preciso determinar sozinho o que é verdade. Não preciso fazer de meus sentimentos a medida de todas as coisas. Posso submeter desejos, pensamentos, escolhas e projetos Àquele que vê aquilo que eu não vejo e conhece aquilo que eu não conheço.

Talvez, então, uma das perguntas mais importantes da maturidade cristã não seja apenas:

“Eu sigo Jesus?”

Mas:

“Em quais áreas da minha vida ainda quero que Jesus me siga?”

A verdade que nos confronta também revela esses lugares.

E cada vez que respondemos a ela com arrependimento, fé e obediência, algo começa a mudar: o eu deixa o centro e Cristo ocupa, na prática, o lugar que sempre lhe pertenceu.

Esse é o caminho do discipulado.

Não o desaparecimento de quem somos, mas a rendição de quem somos.

Não a destruição da nossa vontade, mas sua submissão.

Não o desprezo por nós mesmos, mas o reconhecimento de que não fomos chamados para sermos senhores de nossa própria vida.

Fomos chamados para seguir.

E seguir Jesus começa quando aceitamos que Ele vai à frente.

 

Cláudia Abreo

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