Raízes Profundas
Escolhidas para frutificar
“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça.”
João 15:16
Chegamos ao fim da nossa jornada entre raízes, terra, folhas, galhos e frutos. Começamos olhando para aquilo que ninguém vê e perguntando de onde nossas raízes estavam sendo sustentadas. Depois vimos o Agricultor se aproximar, tocar a terra, escavar lugares profundos e tratar aquilo que permanecia escondido. Fomos confrontadas pela possibilidade de produzir muitas folhas e pouco fruto e, por fim, chegamos à poda — aquele processo delicado em que Deus toca até mesmo aquilo que está saudável para que possa produzir ainda mais.
Agora, diante de João 15, talvez possamos compreender melhor por que o Agricultor se dedica tanto à videira. Todo esse processo aponta para um propósito: Deus deseja fruto. Mas não qualquer fruto. Jesus diz: “Eu vos escolhi [...] para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça”.
Existe algo profundamente belo nessa declaração, porque antes de falar sobre aquilo que espera de nós, Jesus fala sobre escolha. Antes do fruto, existe pertencimento. Antes da missão, existe relacionamento. Antes de qualquer coisa que possamos produzir, existe uma voz dizendo: “Eu vos escolhi.”
Isso muda completamente o lugar de onde começamos. Não frutificamos para sermos escolhidas; frutificamos porque fomos escolhidas. Não precisamos produzir para convencer Deus de nosso valor, conquistar Seu amor ou justificar nossa existência. O fruto não é o preço que pagamos para pertencer à Videira. Ele é consequência de já estarmos ligadas a ela.
Talvez muitas de nós tenhamos vivido durante anos tentando inverter essa ordem. Aprendemos a provar nosso valor pelo que fazemos. Quanto mais conseguimos realizar, mais úteis nos sentimos. Quanto mais pessoas precisam de nós, mais importantes parecemos. E, sem perceber, podemos levar essa mesma lógica para nossa relação com Deus. Servimos para nos sentir aceitas, produzimos para nos sentir relevantes e assumimos responsabilidades para confirmar que somos necessárias. Quando já não conseguimos fazer aquilo que fazíamos antes, começamos até mesmo a questionar nosso próprio valor.
Jesus, porém, coloca as coisas novamente no lugar: primeiro escolhidas, depois enviadas para frutificar. Nossa identidade não nasce do fruto; o fruto nasce da nossa identidade.
É por isso que, alguns versículos antes, Ele diz: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim” (João 15:4).
O ramo não precisa lutar para provar que pertence à videira. Precisa permanecer nela. Talvez essa seja uma das verdades mais libertadoras de toda esta série: frutificação não começa com esforço; começa com permanência.
Um ramo separado da videira pode conservar sua aparência por algum tempo, mas não consegue gerar vida a partir de si mesmo. Nós também não. Podemos produzir atividades, resultados, projetos e até reconhecimento, mas existe um tipo de fruto que somente nasce quando a vida de Cristo percorre aquilo que somos. É esse fruto que Deus procura.
Agora conseguimos compreender por que falamos tanto sobre aquilo que acontece debaixo da superfície. Deus trabalha profundamente nas raízes porque está interessado em algo que permaneça. Resultados rápidos podem ser produzidos pela força, pela necessidade de aprovação, pelo medo de decepcionar ou pela comparação. Mas fruto que permanece precisa nascer de uma fonte profunda.
Talvez seja por isso que Deus não tenha pressa em alguns de Seus processos conosco. Nós olhamos para o tempo e perguntamos quando determinada coisa finalmente acontecerá. Deus olha para as raízes e sabe se aquilo que nascer terá profundidade suficiente para permanecer. Nós queremos expansão; Ele trabalha profundidade. Queremos que apareça; Ele trabalha no secreto. Queremos frutos; Ele cuida da raiz.
Existe uma sabedoria divina nos processos lentos. Enquanto pensamos que nada está acontecendo, raízes podem estar crescendo. Enquanto ninguém vê, Deus fortalece nossa identidade, trata motivações, cura feridas, corrige direções e nos ensina a depender menos daquilo que está ao nosso redor e mais daquilo que recebemos dEle.
Então, quando o fruto chegar, haverá raiz suficiente para sustentá-lo.
Mas talvez também precisemos ampliar nossa compreensão sobre o que significa frutificar. Fruto não é apenas aquilo que realizamos; é também aquilo que nos tornamos. Uma vida frutífera não pode ser medida apenas por números, posições, projetos, visibilidade ou pela quantidade de pessoas que alcançamos. Essas coisas podem fazer parte do nosso chamado, mas não são sua medida definitiva.
Paulo fala de amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio como fruto do Espírito. Isso significa que alguns dos frutos mais preciosos da nossa vida talvez nunca sejam vistos por uma multidão. Podem aparecer na maneira como respondemos onde antes reagíamos, na capacidade de perdoar aquilo que durante anos manteve nosso coração preso, na paz que começa a ocupar lugares antes dominados pelo medo, na mansidão que substitui a necessidade de vencer todas as discussões ou na coragem de estabelecer limites onde antes dizíamos “sim” apenas por medo de não sermos aceitas.
Talvez o fruto esteja na capacidade de amar sem controlar, de servir sem precisar ser reconhecida e de permanecer fiel mesmo quando ninguém está olhando. Esses frutos talvez não recebam aplausos, mas o Agricultor os reconhece.
Existe ainda algo muito bonito nas palavras de Jesus: “para que vades e deis fruto”. O fruto nunca termina na própria árvore. Uma árvore não produz para alimentar a si mesma; aquilo que nasce nela se torna alimento para outros.
Assim também acontece conosco. Uma mulher curada começa a oferecer um ambiente diferente às pessoas ao seu redor. Uma mulher que encontrou sua identidade em Deus já não precisa aprisionar os outros à necessidade de confirmá-la. Uma mulher que aprendeu a permanecer pode se tornar lugar de descanso para quem vive cansado. Aquela que foi consolada pode consolar. Aquela que recebeu graça pode oferecê-la.
Talvez esse seja um dos sinais mais bonitos da maturidade espiritual: aquilo que Deus fez em nós começa a se transformar em alimento para alguém.
Nossa cura deixa de ser apenas nossa. Nossa história redimida começa a servir. Até mesmo nossas cicatrizes deixam de falar somente sobre aquilo que nos feriu e passam a testemunhar sobre Aquele que nos restaurou.
Então começamos a compreender que o fruto nunca foi apenas sobre nós. Existem pessoas que poderão ser alcançadas por aquilo que Deus está formando em nosso interior hoje. Existem ambientes que poderão ser diferentes porque decidimos permitir que Ele tratasse nossas raízes. Existem histórias que poderão tomar outro rumo porque aquilo que recebemos da Fonte não terminou em nós.
É por isso que Jesus não fala apenas de fruto. Ele fala de fruto que permanece.
Há coisas que fazemos que terminarão conosco. Posições serão ocupadas por outras pessoas, projetos chegarão ao fim e estações se encerrarão. Mas existem frutos que atravessam gerações: uma verdade ensinada, uma vida restaurada, um filho que recebeu um legado diferente, alguém que encontrou esperança porque foi alcançado por uma vida transformada.
Talvez nunca saibamos a extensão de alguns desses frutos. E tudo bem. A árvore não precisa acompanhar o destino de cada semente. Ela apenas precisa permanecer ligada à fonte e frutificar.
No início desta série, fizemos uma pergunta: de onde você está sendo sustentada? Agora, ao chegarmos ao fim, talvez possamos acrescentar outra: o que está nascendo daquilo que sustenta você?
Porque existe uma continuidade em todo o processo. A fonte alimenta a raiz. A raiz sustenta a árvore. O Agricultor trata a terra, confronta aquilo que é apenas aparência e poda os ramos quando necessário. E, no tempo certo, o fruto aparece.
Por isso, não tenha pressa de parecer frutífera. Permita que Deus faça um trabalho profundo. Deixe que Ele alcance suas raízes, trate a terra, confronte as folhas que escondem aquilo que precisa de verdade e pode até podar aquilo que já cumpriu seu propósito. Acima de tudo, permaneça na Videira.
Há frutos que somente a permanência pode produzir.
Talvez um dia, ao olhar para trás e perceber o quanto Deus escavou, tratou, esperou e podou, você finalmente compreenda que Ele nunca esteve apenas tentando manter a árvore de pé. Ele estava formando uma mulher capaz de frutificar.
Uma mulher cujas raízes não dependem da estação, que não precisa viver de aparência, que não perde sua identidade quando alguns galhos são podados e que sabe de onde recebe vida. Uma mulher que permanece em Cristo e, porque permanece, frutifica. E porque frutifica a partir da Fonte certa, deixa algo que vai além de si mesma.
Esse é o caminho de uma vida profundamente enraizada em Deus. Não uma vida sem calor, sem escavações ou sem podas, mas uma vida que encontrou uma Fonte que não seca.
Raízes profundas, firmadas na Fonte, produzindo frutos que permanecem.