Raízes Profundas
Folhas não sustentam frutos
“Vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e não achou nela senão folhas...”
Mateus 21:19
Na mensagem anterior, encontramos um Agricultor disposto a escavar a terra e adubar uma figueira que ainda não havia produzido fruto. Vimos que existem momentos em que Deus toca lugares profundos, não para nos expor, mas para nos curar. Ele conhece aquilo que está escondido debaixo da superfície e sabe exatamente onde a terra precisa ser removida para que nossas raízes voltem a receber vida.
Mas existe outra figueira nas Escrituras que nos conduz a uma reflexão diferente.
Em Mateus 21, Jesus encontra uma figueira à beira do caminho. De longe, aquela árvore parecia promissora. Havia folhas. Havia aparência de vitalidade. Tudo nela sugeria que, ao se aproximar, Jesus encontraria fruto.
Mas quando chegou perto, encontrou apenas folhas.
Essa talvez seja uma das imagens mais confrontadoras da vida espiritual, porque nos lembra de que é possível parecer frutífera sem realmente estar frutificando.
As folhas não eram ruins. Elas faziam parte da árvore. O problema era aquilo que anunciavam. Sua aparência criava uma expectativa que sua realidade não correspondia.
Também podemos aprender a produzir folhas.
Com o passar do tempo, aprendemos a linguagem certa, a postura adequada, as respostas esperadas. Sabemos como nos comportar, como servir e até como demonstrar força quando, por dentro, estamos cansadas. Aprendemos a cuidar de pessoas enquanto negligenciamos lugares dentro de nós que também precisam de cuidado. E, pouco a pouco, podemos nos tornar tão habilidosas em sustentar aquilo que aparece que quase ninguém percebe aquilo que deixou de existir.
Talvez nem nós mesmas.
Existe uma diferença entre aquilo que mostramos e aquilo que somos quando ninguém está olhando. Entre a vida que apresentamos e a vida que cultivamos no secreto. Entre falar sobre Deus e permanecer em Deus. Entre conhecer a linguagem da fé e permitir que essa fé transforme nossa maneira de viver.
É nesse lugar que a figueira de Mateus nos confronta.
Folhas podem impressionar quem olha de longe. Frutos somente são encontrados por quem chega perto.
Jesus se aproximou.
E talvez seja exatamente isso que torne essa passagem tão profunda. Ele não avaliou a árvore à distância. Aproximou-se dela.
Deus também se aproxima de nós.
Ele atravessa aquilo que apresentamos, passa pelas folhas e chega aos lugares que ninguém mais consegue enxergar. Ele conhece a mulher que existe por trás das funções, dos títulos, das responsabilidades e das expectativas. Conhece aquilo que somos quando não precisamos provar nada para ninguém.
E Seu olhar não pode ser enganado pela aparência.
Isso não deveria nos assustar. Deveria nos libertar.
Porque viver de aparência é cansativo.
É cansativo precisar parecer forte o tempo inteiro. É cansativo sustentar uma imagem de que está tudo bem quando não está. É cansativo sentir que precisamos demonstrar uma espiritualidade que, em determinados momentos, não corresponde ao que realmente estamos vivendo.
Deus não nos chamou para representar uma vida espiritual.
Ele nos chamou para vivê-la.
Por isso, talvez o maior perigo não seja reconhecer que estamos em processo. O maior perigo é esconder o processo atrás das folhas.
Há liberdade em poder dizer: “Deus ainda está trabalhando aqui.” Há maturidade em reconhecer áreas que ainda precisam ser transformadas. Há graça em admitir que nem tudo dentro de nós chegou ao lugar onde gostaríamos.
A figueira de Lucas 13 também não tinha fruto, mas havia um Agricultor trabalhando em suas raízes. A diferença é significativa. Uma árvore estava em processo de tratamento; a outra apresentava uma aparência que não correspondia à sua realidade.
Deus não exige de nós a aparência de quem já chegou. Ele deseja a verdade de quem permite ser tratada.
Talvez algumas de nossas folhas sejam até mesmo coisas boas.
O serviço pode ser uma folha.
O conhecimento pode ser uma folha.
Os dons podem ser folhas.
A atividade ministerial pode ser uma folha.
A capacidade de cuidar de todos pode ser uma folha.
Nada disso é necessariamente errado. O problema começa quando usamos aquilo que fazemos para esconder aquilo que não estamos permitindo que Deus faça dentro de nós.
Podemos falar sobre perdão e continuar alimentando ressentimentos. Podemos ensinar sobre confiança enquanto somos governadas pelo medo. Podemos servir pessoas enquanto nossa identidade depende desesperadamente da aprovação delas. Podemos falar sobre descanso enquanto construímos nosso valor sobre produtividade.
As folhas podem continuar verdes enquanto as raízes contam outra história.
Por isso, Deus não está interessado apenas na quantidade de coisas que fazemos em Seu nome. Ele deseja formar em nós algo que revele Sua própria natureza.
Paulo chama isso de fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Observe que a Bíblia chama essas coisas de fruto.
Não são performances espirituais. São evidências de uma vida que está sendo transformada por dentro.
Talvez uma das perguntas mais importantes que podemos fazer, então, não seja “quanto estou fazendo?”, mas “quem estou me tornando?”
Porque podemos realizar muitas coisas e continuar reagindo da mesma maneira. Podemos acumular conhecimento e permanecer presas aos mesmos padrões. Podemos crescer em visibilidade sem crescer em caráter.
Fruto é diferente.
Fruto revela que alguma coisa aconteceu no interior da árvore.
Ele é a expressão visível de uma transformação invisível.
É por isso que raízes profundas importam tanto. O fruto que aparece nos galhos começa em lugares onde ninguém aplaude, ninguém vê e ninguém reconhece.
Começa no secreto.
Na maneira como respondemos quando somos contrariadas. Naquilo que fazemos quando ninguém está olhando. Na forma como tratamos as pessoas que não podem nos oferecer nada em troca. Na capacidade de pedir perdão, de reconhecer nossos limites, de permanecer ensináveis e de permitir que Deus continue transformando nosso caráter.
É nesses lugares que o fruto começa a aparecer.
Talvez hoje Deus esteja nos convidando a olhar para nossa árvore com sinceridade. Não para nos condenar, mas para nos libertar da necessidade de manter aparências.
Onde existem apenas folhas?
Onde nossa imagem cresceu mais do que nosso caráter?
Onde aprendemos a parecer bem quando, na verdade, precisávamos permitir que Deus nos tratasse?
Não tenha medo dessas perguntas.
A verdade nas mãos de Deus nunca tem como propósito final a condenação. Ela abre caminho para transformação.
Porque o objetivo de Deus não é arrancar nossas folhas e nos deixar expostas.
É produzir em nós fruto verdadeiro.
E aqui nossa jornada começa a entrar em uma dimensão ainda mais profunda.
Porque João 15 nos apresenta algo surpreendente: o Agricultor não trabalha apenas nos ramos que não produzem. Jesus diz que todo ramo que dá fruto, o Pai poda para que produza ainda mais fruto.
Isso significa que existe um tratamento para a esterilidade, mas existe também um tratamento para a frutificação.
Há coisas que Deus trata porque impedem o fruto.
E há coisas que Ele corta justamente porque o fruto já começou a nascer.
Na próxima mensagem da série Raízes Profundas, vamos conversar sobre um dos processos mais delicados da vida com Deus:
Quando o Agricultor poda.